5. GERAL 8.5.13

1. GENTE
2. HUMOR  E L VAI BOMBA NO GRAMADO!
3. ESPECIAL  CONDENADOS PELA IMPUNIDADE
4. AMBIENTE  O APOCALIPSE TER DE ESPERAR
5. JUSTIA  VOC  UM BRANCO SUJO!
6. EDUCAO  O PRIMEIRO CLIQUE
7. REALEZA  ESTA RAINHA  O MXIMO

1. GENTE
JULIANA LINHARES. Com Marlia Leoni

A VERDADEIRA ESPADA DE SO JORGE
Mulheres naturalmente lindas contam com o privilgio de j partir de um patamar elevado quando resolvem fazer melhorias. CLEO PIRES, 30, capa da revista BOA FORMA, por exemplo, afinou ainda mais a cintura com duas horas dirias de aula de dana do ventre, que comeou a praticar por causa de seu papel em Salve Jorge. As sobrancelhas da moda  fortes e definidas  so aperfeioadas com muitas horas-pina na frente do espelho. "Estamos ensaiando agora a dana da espada. Cleo adora, porque ela tem essa coisa da mulher que domina o falo", exalta a professora Patrcia Passo. O novo namorado, o ator Rmulo Arantes Neto, provavelmente tambm vai adorar.

E COMO SER O DIA DAS MES?
Ela fez um acordo para ser usada como barriga de aluguel, disse em mensagem a uma grande amiga que no queria nem saber dos filhos e assinou um contrato abrindo mo da guarda deles por 8 milhes de dlares. DEBBIE ROWE, 54, a enfermeira que foi casada com Michael Jackson para fins puramente reprodutivos, est longe de ter uma boa relao com a maternidade. Mas me  me, e recentemente ela comeou a se reaproximar da filha, PARIS JACKSON. Encontraram-se quando a menina completou 15 anos e voltaram a ser vistas juntas na semana passada. Prince, o mais velho, ainda guarda distncia. E Blanket, o caula, no sabe sequer quem  a me. 

A ESCOLA DE MOAS MS
Quem tem filha adolescente se lembra de como ela era louca por MILEY CYRUS, 20. Espcie de princesinha da Disney, Miley no s cresceu como enveredou pelo caminho das garotas malcomportadas: exerce o exibicionismo em tempo integral, tem namorado ioi e faz fotos picantes, como a ltima srie para a V Magazine. "Tosei meu cabelo, comprei botas e agora no tem mais jeito; no vou voltar a ser o que eu era", desafia a cantora. A histria no  original, claro. Madonna, Lady Gaga e Rihanna tambm ficaram mazinhas em algum ponto da carreira. O retorno  garantido.

APRIMORANDO A ESPCIE
O prncipe RAHIM AGA KHAN, 41, vem de um cl poderosssimo e pouco conhecido, o dos xiitas ismaelitas, uma minoria dentro da minoria do mundo muulmano. Venerados como lderes espirituais e terrenos, os homens da estirpe tambm desenvolveram o gosto por cavalos de raa e mulheres de gentica privilegiada. Rahim  filho de modelo inglesa e neto de bailarina italiana. O av playboy foi casado com a mitolgica Rita Hayworth. Agora, Rahim vai manter a tradio e se casar com a modelo americana KENDRA SPEARS, 24. Os ismaelitas vivem entre Paquisto, Afeganisto e Ir, e pagam o dzimo anual, o que contribu para a fortuna da famlia, uns 13 bilhes de dlares.

MAIS UMA FERA DO HUMOR
Ela se chama KFERA ("Minha me diz que isso quer dizer o primeiro raio da manh, em egpcio. Comecei a ser zoada pelo enfermeiro que fez meu parto") e tem um vlog, ou vdeos que pe na internet semanalmente. Os mtodos para o sucesso: tratar famosos com uma abordagem irnica, falar palavras pesadas e postar fotos das maldades que faz com o namorado, como acord-lo com um banho de gua gelada. "Ke Fera", como  chamada, ganhou 2 milhes de fs e, agora, um programa no canal Mix TV, no qual vai reproduzir suas gracinhas. "Tambm recebi convite para fazer um filme porn e uma mordida de uma f, que se emocionou ao me conhecer, brinca a paranaense. 


2. HUMOR  E L VAI BOMBA NO GRAMADO!
Uma mistura plstica de granada com soco-ingls, a caxirola  um daqueles desastres artificiais que ocorrem quando os governos se metem a ensinar o povo a ser povo.

     Pior do que torcida organizada s mesmo o estado disposto a organizar a torcida. A nsia controladora do atual governo deu origem a um desastre artificial ainda mais sabotador das emoes proporcionadas por grandes jogos de futebol do que a infame vuvuzela, a corneta plstica que fez da Copa do Mundo na frica do Sul, em 2010, o pior espetculo do gnero de toda a histria. Quem esteve nas arquibancadas e nos gramados na Copa da frica do Sul ainda tem pesadelos com aquele zumbido ensurdecedor, uma tortura sonora totalmente descasada do ritmo do espetculo, como se a partida estivesse sendo disputada dentro de uma colmeia de abelhas gigantes.  possvel fazer algo pior quatro anos depois? Impossvel. Mas o Brasil tentou. Como  agora a tnica, onde ocorre um absurdo de grandes propores, l est a mo pesada do governo. 
     Mas nada como uma prova de campo para que o povo possa desmantelar em segundos o que se tramou s suas costas para beneficiar meia dzia de espertalhes acostumados a enganar eleitores. Torcedor no estdio  mais esperto do que eleitor. O Brasil tem uma dvida de gratido com a brava torcida do Bahia. No ltimo domingo, milhares de espectadores que foram assistir ao clssico Bahia e Vitria, na Arena Fonte Nova, receberam de graa na entrada do estdio um chocalho fundido em plstico na forma quase exata de granada combinada com soco-ingls. Depois de o Bahia sofrer o segundo gol do Vitria ainda no primeiro tempo, os torcedores descobriram uma finalidade para o objeto que receberam: arremess-lo contra os jogadores cujo desempenho vinha sendo sofrvel. Essa  a breve histria da caxirola, um caso desde j clssico de cultura popular prt--porter. de ensinar o povo a ser povo. "O torcedor no  bobo. Sabe que aquilo ser vendido aos estrangeiros como um falso smbolo da torcida brasileira. Foi uma tentativa malsucedida de impor  Copa um projeto comercial que nada tem a ver com o futebol no Brasil", diz Amir Somoggi, especialista em marketing esportivo. 
     Encomendada pelo Ministrio do Esporte ao msico Carlinhos Brown para ser equipamento oficial do torcedor nos estdios na Copa de 2014, a geringona plstica foi apresentada ao distinto pblico pela ministra da Cultura, Marta Suplicy, naquele idioma oficial de Braslia parecido com o portugus em que a gramtica  torturada na exata proporo entre a incapacidade de convencer e a falta de convico: "...s uma questo de genialidade pode fazer uma coisa como essas... a caxirola ser a marca no nosso futebol". No ser. Dificilmente ela sobreviver  estreia desastrosa na Fonte Nova. Com isso, perdem Brown e sua scia, a The Marketing Store, multinacional responsvel pelo design das embalagens da rede de lanchonetes McDonalds. Perde a Fifa, que licenciou o estrupido a ser vendido por 30 reais. Ganham os torcedores e o espetculo de futebol.


3. ESPECIAL  CONDENADOS PELA IMPUNIDADE
O pagamento do "bolsa-bandido" explodiu nos ltimos doze anos e chegou a quase 40.000 famlias; enquanto isso, uma gerao de rfos do crime cresce desassistida no Brasil.
LAURA DINIZ E JULIA CARVALHO

     Hoje, quase 40.000 presos brasileiros podem dormir tranquilos em sua cela com a certeza de que sua famlia est amparada pelo estado. Graas ao estmulo do governo federal, o nmero de criminosos que requereram e obtiveram o auxlio-recluso aumentou 550% de 2000 a 2012  uma alta que se deu em um ritmo trs vezes maior do que o da populao carcerria. Entre os principais auxlios previdencirios, o chamado "bolsa-bandido"  o segundo que mais cresceu nos ltimos anos, atrs apenas da ajuda para quem sofreu acidente de trabalho. A mdia de pagamento por famlia  de 730 reais mensais, acima do salrio mnimo no pas, de 678 reais.  correto que algum que roubou ou matou tenha direito a um benefcio desses? As pessoas que ficam desassistidas quando um parente mata algum so to vtimas quanto as que choram a perda de um pai de famlia num assalto? Mais:  sensato usar do mesmo grau de compaixo para com um menino de 19 anos morto na frente de casa por causa de um celular e um rapaz de 17 anos que atirou contra a sua cabea mas "no sabia o que estava fazendo"? O debate sobre a violncia no Brasil atingiu um grau de insensatez capaz de borrar a distino entre criminosos e vtimas. Para ajudar a restabelecer essa fronteira, a reportagem de VEJA foi a cinco regies do pas ouvir as mais frgeis vtimas dessa situao: os rfos do crime, crianas e adolescentes que perderam o pai, a me ou ambos nas mos de criminosos. 
     No Brasil, ao contrrio do que acontece em pases como Frana e Estados Unidos, familiares de algum morto por bandidos no tm direito a nenhum benefcio exclusivo, embora possam contar com o auxlio previdencirio genrico da penso por morte  no valor de 920 reais, recebidos pelos dependentes dos contribuintes da Previdncia Social. J o auxlio-recluso foi criado com a finalidade especfica de proteger as famlias dos criminosos tambm contribuintes. Ele  fruto de dois conceitos jurdicos. Um deles diz que, diferentemente do que ocorre nas ditaduras, na democracia admitem-se somente penas individuais  ou seja, a famlia do criminoso no pode pagar pelos erros dele. O outro prev que, quando o estado, detentor do monoplio da fora, tira a liberdade de um provedor de famlia, deve sustent-la. Seriam premissas indiscutveis no fosse o fato de que o estado brasileiro j conta com uma rede de proteo social perfeitamente capaz de amparar uma famlia pobre que perde seu arrimo, por morte ou outro motivo, sendo a mais notria delas o Bolsa Famlia. Para especialistas, isso tira o sentido de uma proteo especfica para familiares de algum que violou as regras da sociedade. "Trata-se de uma cota para quem fez o mal", diz o filsofo Denis Rosenfield. "O estado deveria garantir a segurana, no beneficiar algum que quebrou essa segurana. Em ltima instncia, a  famlia da vtima ajuda a pagar um benefcio  famlia da pessoa que destruiu a sua." 
     As crianas mostradas nesta reportagem perderam seus pais para o crime que mais pavor desperta nas grandes cidades, o latrocnio.  o roubo seguido de morte, e muitas vezes precedido de agresso, quando no tortura  como ocorreu no caso da dentista queimada viva por bandidos por ter apenas 30 reais em sua conta (veja na pg. 92). Em catorze estados brasileiros com estatsticas criminais precisas, o nmero de latrocnios se mantm estvel h alguns anos  de 2007 a 2011 eles tm registrado, juntos, cerca de 1000 por ano. Em So Paulo, o nmero de latrocnios aumentou 18% na comparao entre o primeiro trimestre deste ano e o do ano passado. A percepo geral  de que os criminosos apertam o gatilho com uma facilidade cada vez maior. Policiais que convivem todos os dias com essas situaes e especialistas que estudam o tema tm uma explicao. Segundo eles, a idade mdia dos bandidos diminuiu  passou dos 20 e poucos anos para menos de 20. Isso significa que hoje h bandidos mais impulsivos e mais inseguros  do tipo que se assusta e atira com mais facilidade do que um criminoso experiente. "Alm disso, quanto mais jovens eles so, menor  a maturidade emocional e maior a sua vulnerabilidade a presses. Querem se impor, e para isso s tm a fora", explica o psiclogo Antonio Serafim, do Ncleo de Estudos e Pesquisas em Psiquiatria Forense e Psicologia Jurdica, do Hospital das Clnicas de So Paulo. "Derramar um lquido inflamvel sobre o corpo das vtimas e ameaar atear fogo  um recurso comum entre jovens assaltantes de residncias", diz um policial experiente de So Paulo. 
     O conjunto de aes que pode derrubar os latrocnios  o mesmo que pode provocar uma queda generalizada dos demais delitos. Uma boa iluminao pblica e rondas ostensivas da Polcia Militar diminuem a probabilidade de criminosos abordarem a vtima nas ruas. A apreenso de armas de fogo das mos dos bandidos tambm reduz as possibilidades de um roubo terminar em morte. Uma investigao policial eficiente  fundamental,  medida que tira de circulao bandidos que poderiam evoluir de batedores de carteira para latrocidas. Finalmente, a condenao a penas severas  o antdoto mais eficaz contra a impunidade  por sua vez, o principal combustvel a alimentar o crculo vicioso do crime. 
     No existem frmulas novas. A diferena est no maior ou menor rigor com que elas so aplicadas  e na coragem de tratar como criminosos os que cometem crimes e como vtimas os que de fato o so. As crianas desta reportagem no vo mais  escola de mos dadas com seus pais, no os tero por perto para assistir  sua primeira comunho, presenciar suas primeiras vitrias esportivas, comemorar o primeiro emprego, lev-las ao altar quando se casarem nem brincar com seus filhos. Algum, munido de uma arma e do desejo de roubar, tirou-lhes tudo isso. No pode haver dvidas sobre quem so as vtimas.  

"Volta, pai"
Em junho do ano passado, o comerciante Cid Holanda Campelo, de 40 anos, trabalhava em seu aougue, em Rio Branco (AC), quando foi abordado por um ladro armado. Na hora, no reagiu e entregou tudo o que lhe foi pedido. Mas, em seguida, partiu para cima do assaltante. Na luta, foi atingido por um tiro no abdmen. "Ele se arrependeu muito de ter reagido, mas disse que sentiu uma raiva incontrolvel", diz a viva, Neli Gomes da Silva, de 29 anos. O comerciante ficou quase dois meses internado antes de morrer, de infeco generalizada. Durante a internao, fez o reconhecimento do assaltante, reincidente, preso at hoje. Cid deixou dois filhos: Michael, de 13 anos, e Cid Jnior, de 2 anos. Para explicar ao filho menor o que havia acontecido, Neli disse que o pai estava dormindo com Deus. Com saudade, Cid Jnior pediu vrias vezes para a me "acordar o papai". Michael pouco fala sobre o assunto, mas registrou sua dor em tinta guache no muro de casa: "Volta, pai".

SEQUELAS ETERNAS
Juliana Vitoria Lopes, de 4 anos, sonha em ser bailarina  mas ainda no anda. Em abril de 2009, ela estava na barriga da me, Leslie Lima Vitria, de 33 anos, quando anunciaram um assalto, no Rio. O pai, Anderson Pinheiro Lopes, de 36 anos, no reagiu. Mesmo assim, Leslie foi alvejada com dois tiros na cabea. Juliana sofreu falta de oxigenao no crebro durante o parto de emergncia e ficou com problemas motores nos quadris e nas pernas. Faz fisioterapia, hidroterapia, equoterapia e outros tratamentos para comear a andar, o que, se tudo der certo, dever acontecer em alguns anos. O pai teve de arrumar dois empregos para arcar com as despesas da famlia e no tem tempo para cuidar da filha. Juliana passou a morar com os avs aposentados em Cabo Frio, a duas horas do Rio. No ano passado, percebeu que as outras crianas corriam e ela no. Ficou triste e no quis mais ir  creche. Meses depois, com a chegada de um coleguinha que usa cadeira de rodas, animou-se de novo.

"OS ANJOS DO COMIDA PARA O PAPAI?"
Quando a distribuidora de bebidas do pai foi assaltada, em dezembro do ano passado, Ian tinha 3 anos e Liz, 2 meses. A administradora de empresas Lua Varin, de 29 anos, disse ao filho que o pai, baleado pelos ladres, foi morar no cu. Por algum tempo, o menino fez birra para tomar banho e ir a aula de natao, atividades que realizava com o pai. De tempos em tempos, pensa nele e faz perguntas do tipo: "Os anjos do comida para o papai?", "Ele foi para o cu de nave?" e "No cu tem sof com almofada?". Lua diz que se esforou para superar a raiva dos bandidos, presos pela polcia de Itu (SP), porque no quer criar crianas revoltadas. "Mas me entristeo muito de pensar que o Ian vai se esquecer do convvio com o pai e que minha filha nunca vai ver o sorriso dele chegando em casa."

"AINDA USO AS ROUPAS DELE"
Em 2009, quando o pai de Wendel Rodrigues foi morto, ele no foi ao velrio. "A ltima imagem que queria guardar comigo era a dele sorrindo", diz o jovem, de Sapucaia do Sul (RS), com 14 anos na ocasio. Durante o luto, ele faltou muito as aulas e quase repetiu o ano. Com medo de bandidos, parou tambm de sair com amigos e, hoje, praticamente s vai  igreja e ao colgio, levado de carro pela famlia. Quando uma psicloga sugeriu que se livrasse das roupas do pai, Wendel deixou o tratamento. "Ainda uso as roupas dele. Quero ser igual a ele." O pai foi assaltado quando saa de um banco com o dinheiro que usaria para pagar a festa de 15 anos de Wendel.

LEMBRANAS DO "HOMEM MAU"
Vincius Amaral, de 3 anos, estava numa loja de mo dada com a me quando os ladres chegaram. O crime ocorreu em Curitiba (PR) h seis meses. A me no quis entregar as chaves do carro e morreu com um tiro na cabea, disparado por um menor de idade. Ainda hoje, Vincius comenta com o pai, Eduardo, que "o homem mau arrancou o cabelo da me" e foge para o quarto quando v algum armado na TV. O irmo mais velho, Willian, de 16 anos, agora ajuda o pai a cuidar da casa e do irmo. "Fico revoltado que algum da minha idade tenha feito isso com a minha me. Por que no deu s uma coronhada? Quem garante que ele no vai matar de novo?" O menor est numa instituio para infratores e trs cmplices maiores, presos. Outro comparsa chegou a ser detido, mas est foragido. A polcia paranaense o soltou por engano. 

MEDO CONSTANTE
Ao parar num semforo no bairro do Morumbi, em So Paulo, o carro em que estavam Gabriel Paiva e seus pais foi abordado por trs menores. A me se assustou e fechou o vidro do passageiro, irritados, os bandidos a mataram com um tiro na nuca. O pai saiu do carro e pediu para pegar o garoto no banco de trs, mas foi atingido com um tiro no peito pelo mesmo menor. Morreu abraado ao filho de 7 anos. O garoto se mudou para o Recife (PE) e, desde ento, vive com os avs. Hoje com 13 anos, Gabriel diz ter superado o que aconteceu. "No foi fcil, mas um dia disse para mim mesmo que tudo aquilo tinha passado e eu precisava seguir em frente. Hoje penso neles mais nas horas difceis", conta. A sequela que ficou foi o medo. Ele nunca anda com os vidros do carro abertos, no gosta de ir  casa da praia em Ipojuca porque no a considera segura. O garoto tambm teme perder os avs. "Sei que eles no vo durar para sempre. Mas queria muito que eles me vissem casar e ter filhos."

DUAS VEZES VTIMA
Aos 11 anos, a terapeuta carioca Marcia Bairos de Medeiros, de 32, perdeu o pai, executivo de multinacional, em um assalto. "Meus irmos tinham 7 e 14 anos. Minha me, que no trabalhava, vendeu bolsas para nos sustentar. Foi muito duro. A cada data importante  meus 15 anos, o nascimento da minha filha , eu chorava a falta dele." No dia 7 de maro, ela reviveu o drama de forma trgica. Seu marido foi baleado na cabea em um assalto  sua casa, na Zona Sul do Rio. A filha de Marcia, Mariana, de 15 anos, testemunhou o assassinato do padrasto. "Ela o via como um pai. Seu luto  exatamente igual ao meu. Hoje, no choro mais de revolta, mas de saudade."

A DOR DOS QUE FICARAM
Desde que enterraram a filha, h cerca de dez dias, os aposentados Viriato Gomes de Souza, de 70 anos, e Risoleide Moutinho de Souza, de 71, no puderam se entregar ao luto. Enquanto chora a perda da dentista Cinthya Moutinho de Souza, de 47 anos, queimada viva em seu consultrio em So Bernardo do Campo (SP) por ter um saldo de apenas 30 reais para entregar aos assaltantes, o casal tem de se preocupar com sua outra filha, Simone, de 42 anos. Ela  deficiente mental e, embora no compreenda bem o que se passa  sua volta, nem por isso deixa de sentir a falta da irm. "Ela no fala, mas d para perceber que est deprimida. Dorme mal e est com a alimentao prejudicada. s vezes, fica um tempo segurando o sapato da Cinthya", conta o pai. A dentista ajudava os pais a cuidar de Simone. Como ela no pode ficar sozinha, Cinthya ficava com a irm em vrios momentos pela manh e  noite e a levava  escola todos os dias. Em meio  dor, Souza tambm tem de lidar com outra preocupao: a segurana da famlia que lhe restou. Nos ltimos dias, eles tm recebido telefonemas perturbadores. So ligaes a cobrar, daquelas em que se fala "alo" diversas vezes e a pessoa do outro lado da linha desliga. Em uma ocasio, chegaram a dizer a Rosileide: "Aqui  um traficante. Que palhaada, vocs prenderam meu amigo. A queimadinha no vai atender?". A polcia foi acionada e monitora a situao. Ainda no se sabe se so trotes ou ameaas reais. "Sempre fui trabalhador, sempre vivi uma vida sossegada. Fiz 70 anos em novembro e ainda no conhecia o lado perverso da vida", desabafa Souza. A filha ajudava nas finanas da famlia, mas Souza afirma que eles conseguiro se manter bem mesmo sem ela. Ele e a esposa so aposentados. Ambos dividiam seu tempo entre o trabalho de casa, os cuidados com Simone e pequenas tarefas no consultrio de Cinthya. A me marcava as consultas, e o pai limpava o consultrio para que a filha pudesse trabalhar tranquila. "O consultrio era um sonho dela. Morreu com ela, vamos fechar", diz o pai.

COMO O MUNDO TRATA OS CRIMINOSOS E SUAS VTIMAS
A assistncia prevista na lei para os parentes dos afetados pelos dois lados da violncia. 
ARGENTINA
Para a famlia do preso: No h auxlio
Para a famlia da vtima: No existe compensao financeira, mas h assessoramento jurdico e psicolgico

CHILE
Para a famlia do preso: No h auxlio
Para a famlia da vtima: No existe compensao financeira, mas h assessoramento jurdico e psicolgico

DINAMARCA
Para a famlia do preso: No h auxlio
Para a famlia da vtima: O governo fornece apoio psicolgico, consultoria jurdica e compensao financeira

ESTADOS UNIDOS
Para a famlia do preso: Apenas alguns estados, como Washington e Virgnia, do ajuda financeira s famlias mais carentes
Para a famlia da vtima: Todos os estados possuem programas de ajuda financeira s vtimas de crimes violentos e suas famlias

FRANA
Para a famlia do preso: No h auxlio
Para a famlia da vtima: H compensao financeira para as famlias de baixa renda, alm de assessoria jurdica e psicolgica

REINO UNIDO
Para a famlia do preso: No h auxlio
Para a famlia da vtima: No h auxlio financeiro, mas consultoria para os trmites legais e prticos aps a morte, como o enterro

BRASIL
Para a famlia do preso: Famlias de baixa renda, que dependem exclusivamente do preso que contribua para a Previdncia Social, recebem um auxlio de 730 reais em mdia
Para a famlia da vtima: Toda famlia que perdeu algum que contribua para a Previdncia Social tem direito a penso por morte. No h, porm, um benefcio exclusivo para os que perderam parentes vtimas de crime.

A EXPLOSO DO BOLSA BANDIDO
Na ltima dcada, a existncia do auxlio-recluso se difundiu e o nmero de beneficiados mais que sextuplicou, enquanto a populao carcerria pouco mais que dobrou.
Benefcios do auxlio-recluso
2000: 5791
2006: 18.150
2012: 37.899

COM REPORTAGEM DE ANDR ELER, FABRCIO LOBEL, KALLEO COURA, LESLIE LEITO E RAFAEL FOLTRAM


4. AMBIENTE  O APOCALIPSE TER DE ESPERAR
A verdade inconveniente: as mudanas climticas esto ocorrendo em ritmo mais lento que o previsto pelos propagandistas dos desastres do aquecimento global.
FILIPE VILICIC E VICTOR CAPUTO

     Sempre se brincou que a climatologia  a cincia do achismo, pois no consegue prever com segurana se vai ou no chover no fim de semana. Agora, ela corre o risco de perder o direito de ser chamada de cincia. Na ltima dcada, o rigor cientfico esperado nos estudos climticos viu-se suplantado por um debate que beira a irracionalidade. Cientistas e ambientalistas se deixaram levar por um tipo de fervor dogmtico sobre a necessidade de medidas drsticas para frear a emisso de dixido de carbono (CO2) decorrente da atividade humana. Na opinio deles, ou se faz isso, ou o aquecimento global causar desastre ambiental de propores apocalpticas. A complicao  que no se encontrou o meio que permita conter a emisso de gases do efeito estufa sem reduzir a produtividade da economia e o bem-estar das populaes. Na semana passada, discutindo com base no prognstico de um aumento de 2 graus na temperatura mdia global neste sculo, os 27 pases da Unio Europeia (UE) confirmaram planos de gastar 20% de seu oramento anual (hoje daria 24 bilhes de euros) em medidas contra a emisso de CO2. O dinheiro poderia ter melhor destino, pois a viso cataclsmica que a UE se dispe a enfrentar , em grande parte, o resultado de estudos manipulados para sustentar a tese de seus autores. 
     As falhas desses estudos foram claramente expostas por um extenso levantamento publicado pela Universidade de Reading, na Inglaterra. Depois de examinar prognsticos feitos desde 1960, o climatologista Ed Hawkins concluiu que a maioria deles errou vergonhosamente. A principal falha foi a previso de uma elevao crescente e rpida da temperatura mdia do planeta. Ocorreu o contrrio. A temperatura aumentou abaixo do esperado pelos cenrios elaborados pelos climatologistas para as ltimas dcadas e se mantm estvel desde 2008 (veja o grfico na pg. 95). Como a quantidade de carbono jogada pelo homem na atmosfera duplicou em vinte anos, a verdade inconveniente  que  possvel que o CO2 nem sequer seja o vilo. O aumento da descrena no alarmismo do aquecimento global, por sinal, j fez desabar o mercado de carbono, mecanismo que permite a compra e a venda do direito de emitir CO2. O valor negociado caiu de 126 bilhes de dlares, em 2011, para 81 bilhes, no ano passado. 
     A ala pessimista da climatologia estimou que a temperatura mdia do planeta subiria em torno de 1 grau nos ltimos quarenta anos. Nada menos que 95% desses cientistas estavam errados. A elevao no perodo foi de apenas meio grau.  primeira vista pode no parecer um erro to grande, mas, usado em modelos de previso climticos, o dado inexato se multiplica e pode assumir dimenses absurdas. Uma das concluses baseadas em dados equivocados  que, se nada de drstico for feito nos prximos dez anos, a temperatura global vai disparar 4,5 graus at o fim do sculo. Os prognsticos extremados serviram de base para um relatrio preparado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanas Climticas (IPCC), rgo da ONU, divulgado com enorme repercusso em 2007. O IPCC deu seu aval  associao do aumento da temperatura s emisses de carbono e pintou um cenrio de fim do mundo, do qual se destacam a elevao do nvel dos oceanos causada pelo derretimento das geleiras e a inundao de cidades costeiras, como Nova York e Rio de Janeiro. "No sei se foi incompetncia ou loucura. Os clculos so to absurdos que mesmo considerando as variveis que eles utilizam  impossvel chegar a iguais resultados", disse a VEJA o climatologista ingls Nicholas Lewis, crtico feroz dos prognsticos do IPCC. 
     Lewis refez os clculos matemticos com os mesmos nmeros utilizados como base pelo IPCC. O resultado  como consta no estudo publicado no ms passado  foi a previso de que o aumento da temperatura ultrapassar 1,6 grau at 2100. Isso  menos da metade do previsto no relatrio do IPCC. As consequncias de uma elevao dessa magnitude so de pequeno impacto: maior incidncia de tempestades e a reduo no tamanho das geleiras localizadas em pontos extremos do planeta. No h risco de nenhuma cidade  beira-mar ser submersa. Secas severas so possveis, mas s em regies j atormentadas pela falta de gua, como as limtrofes do Deserto do Saara. "Os erros nos clculos que encontrei so para cientistas o equivalente a dizer que um mais um no so dois", concluiu Lewis. 
     O IPCC existe desde 1988 e, no momento, prepara um novo relatrio sobre o clima para ser divulgado em setembro. Seu contedo j vazou na internet, e o que vem a  mais do mesmo. Os relatrios do IPCC so elaborados por 2000 cientistas de todo o mundo, o que lhes d aparente credibilidade. Na realidade, predominam entre eles interesses polticos, ideolgicos, pessoais e de instituies que nada tm a ver com cincia. O indiano Rajendra Pachauri, que recebeu o Prmio Nobel da Paz na condio de presidente do TPCC, insistiu em incluir no relatrio de 2007 a duvidosa previso do derretimento a curto prazo das geleiras do Himalaia. Trs anos depois, uma investigao pedida pela prpria ONU concluiu que se tratava de especulao. Entrou no relatrio porque Pachauri dirige um instituto em Nova Dlhi e precisava justificar o meio milho de dlares recebido de uma fundao americana para estudar precisamente as geleiras do Himalaia. A investigao apontou o uso indiscriminado de estudos, estatsticas e modelos sem base cientfica na elaborao do relatrio do clima do IPCC. 
 fato que o comportamento do clima ainda est longe de ser inteiramente compreendido pelos estudiosos. Por que ocorreu uma elevao rpida na temperatura mdia do planeta no incio dos anos 90 seguida por um perodo de estabilidade que se mantm at hoje? No mesmo ano em que a Unio Europeia se mobiliza para tentar impedir o previsto aumento de 2 graus na temperatura global, a Inglaterra enfrentou seu inverno mais gelado desde 1962, e ainda nevava em Londres um ms depois do incio da primavera. Como o aquecimento global se encaixa nesse cenrio gelado? H suposies, mas no respostas decisivas. Apesar das incertezas, vozes influentes conseguiram inserir o aquecimento global no centro das preocupaes mundiais. No h mesmo como ignorar algo que  alardeado como o prenncio do fim do mundo. 
     O mais famoso cruzado do carbono  Al Gore, que foi vice-presidente americano no governo de Bill Clinton. Ele ganhou um Oscar com um filme cuja mensagem era a seguinte: ou se interrompe j a emisso de carbono, ou o planeta vai fritar como ovo na frigideira.  interessante, do ponto de vista sociolgico, como um movimento nascido praticamente dentro da Casa Branca foi se tornando mais e mais de repdio ao capitalismo,  indstria e  civilizao moderna. A mensagem de fundo parece ser que o homem violou leis sacrossantas da natureza e no lhe resta sada exceto voltar ao estilo de vida neoltico ou padecer num inferno de fogo. No  sem razo que o cientista americano Robert Zubrin, em livro recente, pe Gore entre os "lderes de um culto contra a humanidade" (veja a entrevista abaixo). A associao entre clima e punio divina est entre ns desde que um Cro-Magnon espiou pela entrada da caverna e se perguntou quem mandava no raio e no trovo. O conceito do fim do mundo pelo pecado ecolgico  mais recente. Quarenta anos atrs, havia a firme convico de que estvamos s vsperas de uma nova era glacial. Em 14 de agosto de 1976, o The New York Times informou seus leitores da existncia de "muitos sinais de que a Terra pode estar a caminho de outra Idade do Gelo". No ano seguinte, a revista Time publicou uma capa afirmativa: "Como sobreviver  Idade do Gelo que vem a". O tema ambientalista  o mesmo, mas mudou a polaridade: em lugar de sucumbir ao frio, a humanidade morrer de calor. 
     A atividade humana pode poluir o ar que respiramos e arruinar o ambiente em que vivemos.  bom lutar contra esses estragos ambientais. Mas mexer com o clima do planeta parece estar alm da capacidade do homem. Os ciclos de variaes climticas so naturais. Mil anos atrs, a temperatura mdia da Terra era superior  atual. H 300, passamos por uma miniera do gelo. Estudos geolgicos indicam que faz 50 milhes de anos que o planeta passa por um resfriamento, com queda de 20 graus em sua temperatura mdia desde ento.  bem possvel que neste momento a Terra possa estar no finzinho de uma era glacial. A verdade inconveniente que muitos no querem aceitar  que o planeta esquenta e esfria por motivos prprios  e que pouco se pode fazer a respeito.

Depois de analisarem os prognsticos feitos por estudiosos do clima desde 1960, pesquisadores da Universidade de Reading, na Inglaterra, chegaram  concluso de que a maioria deles errou feio.
PREVISES MAIS ALARMISTAS - O que eles esperavam: elevao de 1 grau nos ltimos quarenta anos, seguida pelo aumento de 0,8 grau nos prximos trinta anos.
PREVISES MODERADAS - O que eles esperavam: aumento de 0,7 grau no passado e elevao rpida da temperatura em futuro prximo.
O QUE ACONTECEU [*Variao real de temperatura registrada pela Agenda de Meteorologia do Reino Unido]
A temperatura mdia global subiu menos de meio grau nas ltimas cinco dcadas. Teve uma ligeira queda entre 2005 e 2008 e permanece estvel desde ento. Se seguir nesse ritmo, dever aumentar menos de 0,2 grau nas prximas trs dcadas (um quarto do que  esperado pelos alarmistas).

A CULPA PODE NO SER DO HOMEM
A maioria dos estudos alarmistas sobre o aquecimento global aponta os gases do efeito estufa produzidos pela atividade humana como responsveis por esse fenmeno. Novas pesquisas do maior relevncia a outros fatores.
 NATURAL
O planeta passa por ciclos de esfria-esquenta. A temperatura global pode estar subindo com maior rapidez pelo fato de nos encontrarmos no que parece ser o fim de uma era glacial iniciada h 2,6 milhes de anos.
O VILO PODE SER O SOL
O momento  de alta atividade na superfcie do Sol, com o aumento do nmero de exploses e da emisso de raios ultravioleta. Em perodos assim, a temperatura se eleva tambm na Terra.
O CALOR VEM DA GUA
Os oceanos concentram o carbono em excesso da atmosfera, o que aumenta a evaporao e a concentrao de gases no ar. Essa combinao de fatores alimenta o aquecimento global.
FALHA NAS MEDIES
A maioria dos registros de temperatura  feita em centros urbanos, onde a poluio e os edifcios criam o efeito conhecido como "ilha de calor". Longe das reas urbanas, a variao de temperatura  menor.

MERCADORES DO DESESPERO
Em seu ltimo livro, Merchants of Despair (Mercadores do Desespero), o engenheiro e ensasta americano Robert Zubrin diz que a preocupao com o aquecimento global se transformou num culto contra a humanidade. 

Quem so os mercadores do desespero? 
Ideologias que tentam reprimir atividades humanas sempre existiram. A expanso dessas ideias comeou no sculo XVIII, com o ingls Thomas Malthus propondo o controle populacional para evitar a escassez de comida que seria inevitvel se houvesse maior quantidade de bocas para alimentar. O conceito era torto, uma tentativa de justificar a fome existente em lugares como a ndia e culpar os pases pobres e populosos pelos problemas do mundo. Aps a II Guerra, ganhou fora a ideia de que a Terra estava superpovoada e era preciso economizar no uso dos recursos naturais, pois logo eles se esgotariam.  famosa a afirmao de que em 1990 j no haveria recursos suficientes para sustentar nosso modo de vida. Passamos os anos 90 e nada de drstico ocorreu. A mesma linha de pensamento contra o desenvolvimento  agora usada pelos ativistas do aquecimento global, como Al Gore. So mercadores do desespero que se escondem atrs do bom-mocismo. Eles dizem que o ser humano no  um criador, mas sim um destruidor. No ponto de vista deles, algum precisa controlar os impulsos do homem e estabelecer normas para o uso dos recursos existentes. No por acaso, esse algum  ele prprio, o tal propagandista. Os autoproclamados lderes querem garantir que o poder fique em suas mos. H um provrbio que diz: "Onde h vontade de condenar, nunca faltam evidncias". O que agrava a situao  que o movimento verde virou um culto que no depende mais de explicaes racionais para existir. 

Por que o senhor no considera o aquecimento global um desastre? 
O mundo pouco aqueceu no ltimo sculo. A variao mxima foi de meio grau. Isso no nos prejudicou. Ao contrrio. O solo est 14% mais frtil devido ao aumento na quantidade de CO2 na atmosfera. Pouco se sabe sobre a relao entre a atividade humana e o clima. Tudo indica que causas naturais podem ter o papel mais importante nesse processo. A Terra sempre passou por ciclos de altas e baixas temperaturas e o clima se regula sozinho.  

Como a Terra faz isso? 
Se aumenta a presena de CO2, a fotossntese fica mais eficiente e cresce a quantidade de florestas. O maior nmero de plantas leva ao aumento da evaporao e, logo, a mais chuvas. Isso ajuda a resfriar o planeta. A Terra  um ambiente estvel que funciona como uma bola dentro de uma cratera.  possvel empurrar a bola para um lado ou para o outro, mas ela sempre volta ao centro.  

No haveria benefcio em reduzir a emisso de carbono? 
No. A emisso ocorre porque a indstria e a agricultura esto em alta. Significa que h mais comida, mais inovao, mais recursos, mais riqueza. Em 1910, emitamos 900 milhes de toneladas de CO2 e a renda anual mdia de uma famlia era de 900 dlares. Multiplicamos por dez a emisso de carbono, mas a renda aumentou em igual medida, hoje em 9000 dlares. Isso permitiu reduzir a misria, o maior problema que enfrentamos como civilizao. Quem prega a diminuio de CO2 defende, de fato, a ideia de que a pobreza deve prevalecer. Prefiro viver em um mundo um pouco mais quente, mas rico e saudvel para ns.


5. JUSTIA  VOC  UM BRANCO SUJO!
Um tribunal de Paris julga um caso cuja circunstncia agravante  indita: xingamentos racistas feitos a um francs espancado por se negar a dar um cigarro.

     A Gare du Nord, em Paris,  a estao ferroviria mais movimentada da Europa. Ponto de partida e chegada de trens que ligam a capital da Franca a cidades da regio setentrional do pas e naes como Alemanha, Holanda e Blgica, ela tambm abriga as plataformas dos comboios para Londres, um puxadinho vergonhoso se comparado a seu correspondente na margem de l do Canal da Mancha. A Gare du Nord  ponto de interseco de linhas de metro e do exemplar (menos nos odores) sistema de trens perifricos parisiense. Dois tipos de pessoas a frequentam: passageiros, obviamente, e marginais que tentam roub-los. Para desencanto das crianas, a Gare du Nord no tem 1% do charme daquela em que se ambienta A Inveno de Hugo Cabret, do diretor americano Martin Scorsese.  mais apropriada para cenrio de filmes policiais, como demonstra o episdio que resultou em processo judicial. Processo indito em que um branco acusa de racismo um mestio de sangue rabe. 
     Em setembro de 2010, o acusador desembarcou no metro da Gare du Nord, para fazer uma conexo, quando se viu atacado por dois sujeitos com os quais havia batido boca pouco antes, ao negar-lhes um cigarro. Ele foi espancado e teve o rosto desfigurado por um corte de caco de garrafa. Em seguida, os meliantes o xingaram de "branco sujo" e "francs sujo". No processo contra o nico agressor apanhado, a componente racista entra como agravante de uma pena que pode chegar a quatro anos de priso. O caso extrapolou os limites individuais, depois que a Liga Internacional contra o Racismo e o Antissemitismo constituiu-se como parte civil. A defesa tenta "branquear" o ru, porque ele tem ascendncia francesa por parte de me. Mas a promotoria argumenta que, ainda que entre pessoas de mesma etnia, no so admissveis ofensas de cunho racial. O julgamento ser no dia 21 de junho. 
     O processo  um marco porque reconhece formalmente uma realidade de milhares de pessoas na Franca. Em muitas localidades, os brancos passaram a ser minoria e, assim, para confirmar a pequenez da espcie humana, tornaram-se alvo de manifestaes racistas. A direita usa essa situao como combustvel da sua xenofobia, ao passo que a esquerda minimiza as agresses contra brancos ora como atos isolados, ora como comportamento at certo ponto compreensvel diante das iniquidades cometidas pelos europeus em outras paragens. Ambos os lados esto errados, pelo simples motivo de que, houvesse racismos justificveis, nenhum deles poderia mais ser considerado crime. Estaria aberta, desse modo, a estao de caa de tribos contra tribos, num retorno aos tempos das hordas primitivas, sem leis iguais para todos. Qualquer racismo significa barbrie. O antirracismo, como princpio geral, imune a relativismos,  civilizao. 
MRIO SABINO, DE PARIS


6. EDUCAO  O PRIMEIRO CLIQUE
Escolas brasileiras comeam a usar tablets para ensinar uma turma recm-sada das fraldas e conseguem assim despertar a curiosidade para assuntos, digamos, srios.
HELENA BORGES

     O tempo consumido com os mais variados apetrechos eletrnicos  assunto corrente em rodas de pais de crianas que vieram ao mundo em meio  abundncia da era digital. Eles se preocupam com o excesso, no que tm sua razo. Pois os primeiros passos nesse infindvel territrio esto sendo incentivados pelas prprias escolas, que comeam a adotar tablets para uma turma recm-sada das fraldas. No  raro esbarrar com crianas como as que aparecem acima, mesmerizadas com a tela que j manuseiam com espantosa destreza. Mas que fique claro: o repertrio apresentado em sala de aula a gente to jovem rene aplicativos feitos com o propsito de educar  e no apenas entreter, ainda que este seja um ingrediente essencial para chamar ateno para temas, digamos, mais srios, como formas, nmeros e cores. Os tablets proporcionam algo que a lousa e o giz no oferecem: interao com o objeto de estudo e busca permanente por respostas. Diz Valdenice Minatel, coordenadora de tecnologia (tipo de profissional cada vez mais comum) do colgio Dante Alighieri, em So Paulo: "Os tablets tm ajudado a ampliar o horizonte das aulas". 
     Existem milhares de aplicativos que se pretendem "educativos", mas a maioria no sobrevive a um crivo mais severo. Os realmente bons conseguem apresentar o contedo de forma organizada e gradativa. Eles vo aumentando a dificuldade conforme a criana avana, como num jogo. Os melhores desta safra tambm abrem aos iniciantes na vida escolar a possibilidade de experimentar em algum grau uma modalidade de aprendizado j muito disseminada no ensino superior: a do conhecimento colaborativo. O que no mundo da academia significa compartilhar grandes projetos de pesquisa muito alm das fronteiras geogrficas, no universo infantil se traduz em enviar os trabalhinhos para a avaliao dos colegas  em geral, crticos to entusiasmados quanto impiedosos. s vezes, somam-se na aula dois aplicativos de maneira produtiva, como certas escolas comeam a fazer com os da LisbonLabs, em que contos clssicos so narrados enquanto imagens bem ilustradas surgem na tela. Depois, o professor indica s crianas o boto de gravar em outro programa e pede a cada uma que invente seu prprio final.
 verdade que a experincia de levar tecnologia s escolas nem sempre tem trazido resultados  altura do investimento. Nos Estados Unidos, pas na dianteira dessas iniciativas, muitas escolas que distriburam maciamente laptops a estudantes mais velhos voltaram atrs ao perceber que, no lugar de estimularem a explorao intelectual, estavam, isso sim, incentivando chats e navegao por sites sem elo algum com o currculo (entre os mais populares, os de redes de fast-food e os de pornografia, acessados depois que os alunos driblavam os filtros).  unnime entre os especialistas a avaliao de que a tecnologia s faz efeito mesmo quando vem  sala de aula pelas mos de um bom professor, que deve ser treinado paia isso. Atualmente, 600.000 docentes do ensino mdio brasileiro esto justamente recebendo aulas do MEC para aprender a lidar com tablets, que, em data ainda no definida devido aos atrasos, sero usados em aula. "Para que dem certo, os aplicativos precisam estar muito bem conectados com a proposta pedaggica", pondera a especialista em tecnologia na educao Silene Cordeiro, que coordena a implantao dos tablets no Centro Educacional Miraflores, no Rio de Janeiro. Uma leva de aplicativos at permite ao professor observar o desempenho dos alunos em tempo real  ferramenta esta que, como j est provado, pode dar um bom empurro no ensino. Ela permite ao mestre flagrar as dificuldades assim que elas se anunciam e entrar em ao para que as dvidas no se cristalizem. 
     Uma parte dos aplicativos educacionais  feita para ser usada em casa. Alguns dos mais indicados nesse rol informam com riqueza de detalhes aos pais que caminhos a criana percorrer no mundo virtual.  o caso do Numberland  um dos campees em downloads na App Store na faixa dos 3 aos 6 anos , que introduz os nmeros em ingls por meio de desafios que, quando vencidos, premiam o aluno com uma nova fase do jogo (veja a lista dos mais recomendados na pg. 105). Os pais podem ajudar no s indicando novas fronteiras de explorao virtual como tolhendo o tempo  frente da tela: ele no deve passar muito de uma hora no caso de crianas to pequenas. Um tipo de filtro conhecido como parental control, uma opo em quase todos os tablets, tambm pode ser til, ao restringir a navegao infantil  parte mais apropriada para ela do mundo virtual.  
     O avano dos tablets em faixas etrias to baixas j fez surgir um novo nicho de mercado: o de aparelhos feitos sob medida para os pequenos novatos no mundo digital. Mais leves e com tela entre 4 e 7 polegadas (enquanto a do iPad Mini tem 7,9), eles j vm com uma boa coleo de aplicativos. Uma recente pesquisa, conduzida pela agncia Kids Industries, mostrou que quase 10% das crianas americanas e inglesas j so donas de seu prprio tablet. Os aplicativos tambm se adaptaram a esse grupo. Os da categoria educacional registram milhes de usurios em todos os nveis de ensino  incluindo creches e pr-escolas. " preciso passar uma boa peneira a para ficar com os que realmente produzem resultado", enfatiza o professor de tecnologia na educao Jos Moran, da Universidade de So Paulo. Ser necessrio mais tempo para saber em que medida exatamente os tablets ajudaro na lio. O entusiasmo j despertado em crianas como as que ilustram estas pginas d uma boa pista sobre seu potencial.

PARA EXPLORAR EM CASA
Um grupo de especialistas ouvido por VEJA selecionou no universo dos mais populares aplicativos infantis para tablets os que melhor cumprem o propsito de ensinar. Eles so indicados para crianas de 3 a 6 anos, e os pais podem e devem conduzir a brincadeira [* Lista baseada nos campees em downloads da App Store]

FLIPCARDS PRO
Introduz as letras por meio de um jogo de memria que associa a palavra escrita e seu som  imagem. D para personalizar a brincadeira, escolhendo as figuras que mais atraem a criana

HORA DE BRINCAR COM A DORA, A AVENTUREIRA
Desenvolve o raciocnio lgico ao propor desafios como associar a sombra de personagens  sua figura  tudo com pontuao e tempo contados

MONTESSORI NUMBERLAND
Para aprender a reconhecer e a escrever os nmeros de zero a 9 em ingls. A cada desafio vencido, a criana pula de fase

TOCA HAIR SALON
Ensina as cores e o efeito de suas misturas em um ambiente de salo de beleza com sprays de tinta

A TURMA DA GALINHA PINTADINHA
Exercita a coordenao motora com uma espcie de pintura a dedo virtual (portanto sem sujeira) e tem um minikaraok que ajuda a fixar as slabas [GRTIS]


7. REALEZA  ESTA RAINHA  O MXIMO
A Holanda tem um novo rei, mas todo mundo quer saber mesmo  da rainha, Mxima, a argentina que cumpre seu papel com classe. E at se diverte com isso.

     Por que os holandeses, cidados de um dos pases mais liberais e radicalmente democrticos do mundo, comemoraram com tanto entusiasmo uma cerimnia arcaica como a investidura de um novo rei? Primeiro, porque, como em qualquer festa nacional, as pessoas de certa forma celebram a si mesmas. Segundo, porque aprovam com entusiasmo esmagador a monarquia constitucional, gostaram do trabalho feito por Beatrix, a rainha agora aposentada, e tm uma expectativa positiva em relao ao filho e sucessor dela. Willem-Alexander. Terceiro, e talvez acima de tudo, porque adoram Mxima, a economista argentina que agora se tornou a rainha consorte. Mxima, a figura hoje mais popular do cl real,  simptica, sorridente, espontnea e segura. Assumiu o seu papel sem dar a impresso de sofrer, ter depresso ou se sentir esmagada por uma estrutura poderosa como a das monarquias. Ao contrrio, os maximalistas mais entusiasmados acreditam que foi ela quem levou o marido a ter uma atitude mais positiva em relao  sua funo como herdeiro e, agora, rei. Sem contar que o porte imponente e as roupas exuberantes, que atingiram o pice com o vestido azul-real acompanhado de capa com dominantes ombreiras pontudas usado na cerimnia principal da semana passada, fornecem o tipo de entretenimento que se espera de membros da realeza. 
     Como a maioria quase absoluta dos cnjuges de herdeiros das monarquias contemporneas, Mxima no nasceu nem remotamente perto do ambiente da nobreza. Mas  uma filha legtima da aristocracia rural argentina, fato que acabou produzindo o maior obstculo a seu casamento com Willem: o envolvimento de seu pai, um grande criador de gado, com o atroz regime militar argentino, com o qual colaborou como ministro da Agricultura. No que o prprio pai de Willem, um diplomata alemo que foi membro da Juventude Hitlerista e serviu no Exrcito nazista, tambm no tivesse enfrentado problemas  na poca, a apaixonada Beatrix chegou a fazer greve de fome em famlia para conseguir se casar com ele. Em troca da aprovao do Parlamento ao casamento de Willem com a loira argentina, obrigatria para que ele mantivesse sua posio de herdeiro do trono, foi negociado que o pai dela no poderia ser convidado para a cerimnia. Talvez isso tenha contribudo para uma das cenas mais emocionantes protagonizadas por ela: sentada na igreja, vestida de noiva por Valentino, com as lgrimas rolando pelo rosto ao som de Adis Nonino, o arrebatador tango de Astor Piazzolla. 
     Os mais empedernidos coraes calvinistas comearam a ser conquistados nesse dia, num processo que continua at hoje. "Os holandeses entenderam que Mxima  uma atriz que interpreta seu papel muito bem. Gostamos do fato de que ela saiba fazer isso. No s queremos ter a monarquia, como tambm que seus integrantes faam esse teatro", analisa a escritora Daniela Hooghiemstra. A monarquia holandesa tem certas peculiaridades. Tal como existe hoje, foi instaurada no sculo XIX, no perodo ps-ocupao napolenica, como um agente de reunificao nacional. Mas remonta  luta contra o domnio espanhol, com o levante iniciado em 1579 (o Brasil teve um papel tangencial nessa histria, com as invases holandesas e o governo do prncipe Maurcio de Nassau, antepassado direto do novo rei). A repblica de austeros mercadores protestantes produziu uma estranha convivncia entre valores republicanos e famlias reinantes. Sem contar gnios prodigiosos como Vermeer e Rembrandt. 
     A argentina descendente de bascos e italianos que trabalhava no Deutsche Bank em Nova York e conheceu o prncipe holands durante frias na Espanha no destoa do lado h muito tempo globalizado do pas do qual agora  rainha. A boa vontade que ela e o marido desfrutam contrasta com os problemas de outros herdeiros reais que foram  festa monrquica. O prncipe Charles vive ensanduichado entre o prestgio e a imortalidade da me e a simpatia da opinio pblica por seu filho, William, e pela nora grvida, Kate. O repdio a Camilla diminuiu, mas Charles ainda tem de prometer que ela nunca ter o tratamento de rainha consorte. O prncipe Felipe da Espanha tem conseguido escapar do desmoronamento da imagem da monarquia espanhola, mas no se sabe por quanto tempo. Com ou sem crise, sua mulher, Letizia, sempre d a impresso de estar passando fome ou emburrada, ou ambos. A cerimnia na Holanda foi o primeiro compromisso pblico no exterior de Masako, a reclusa e clinicamente deprimida mulher do prncipe Naruhito, do Japo.  luz de casos assim, a imagem de que conseguem conciliar privilgios e exigncias passada por Willem, Mxima e suas trs filhas, incluindo a agora herdeira nmero1, Catharina-Amalia, tem mesmo de ser celebrada.

UM SORRISO DE MUITOS QUILATES
As joias da coroa holandesa pertencem a uma fundao criada pela av do novo rei, a rainha Juliana. Mxima usou algumas das mais impactantes. A tiara de 31 safiras indianas e 655 diamantes foi criada em 1881. O estupendo diamante Stuart, adquirido em 1690, usado como pingente no jantar aos convidados ilustres, tem quase 40 quilates e  a principal pedra da coleo real.


